O meu relato de parto: humanizado + bolsa rota

Foram semanas e mais semanas aguardando o dia 25 de agosto. A dpp (data provável do parto) era, para mim, quase que uma data limite. Sempre pensei que o bebê nasceria antes disso. Chutei que seria no dia 21. Sentia que não seria antes disso. Mas, enquanto mudavam as semanas, e a gente se aproximava da 40ª, nada parecia acontecer. Francisco não queria chegar. E estaria ele errado? Aparentemente a vida estava mais do que boa dentro da barriga da mãe aqui. E, ainda que a ansiedade batia enlouquecidamente, eu estava tranquila. Sabendo que o parto poderia acontecer, com segurança, até a 42ª semana.

Me preparei para tal. Sabia que o bebê teria o seu tempo. Estava ansiosa, querendo conhecer o seu rostinho, mas aguardava feliz a sua chegada. Fazendo o que eu poderia fazer… caminhadas longas, programas divertidos, atividades leves, tudo para garantir um ambiente perfeito para a liberação de ocitocina, o hormônio do amor. Não ambicionava um parto natural, sem anestesia, mas queria mais do que tudo um parto normal. Queria vivenciar aquilo, sei que seria o melhor para ele e, mais do que isso, precisava de uma recuperação rápida. E lá fomos nós.

Até que com 40 semanas e 2 dias, minha vida mudou completamente.

Da plena felicidade, passei para a ansiedade total! Não queria mais esperar. Não podia mais. Não tinha clima. Perdi meu pai e meu chão. De repente estava em meio ao luto, resolvendo burocracias e tentando me manter centrada, pelo bem de Francisco. Enquanto um monte de gente me atormentava com coisas, como: “você vai fazer o que com os móveis do seu pai?”. Bom, não seja esse tipo de gente. Seja o tipo de gente que oferece apoio, uma palavra doce, ou simplesmente um abraço – tenho uma enorme gratidão por esse tipo de gente.

E, assim, mandei mensagem para a minha obstetra. Contei sobre o que tinha acontecido e disse que não queria mais esperar o parto acontecer naturalmente. Ela me entendeu e pediu que eu aguardasse a próxima consulta, que seria na marca das 41 semanas. Assim conversaríamos sobre o que poderia ser feito.

A bolsa estourou!

Não chegamos a ter uma nova consulta. No dia 30 de agosto, uma quarta-feira, às 23h30, a bolsa rompeu. Sem o menor sinal de trabalho de parto. Eu, que antes sentia constantes contrações de treinamento, não sentia mais nada desde a morte do meu pai. Mas, a bolsa rompeu. Francisco queria nascer. E seria do jeito dele. Menino de personalidade forte. Puxou a quem?

Liguei para minha médica e conversamos sobre o que estava acontecendo… assim, ela falou sobre as possibilidades e disse que pediria à enfermeira obstetra do instituto que fosse me visitar para avaliar a situação, os batimentos do bebê, e tudo mais. Ela chegou já no dia 31 e, enquanto isso, eu já não sabia mais o que fazer! Havia tomado inúmeros banhos e me arrependia amargamente de não ter comprado as tais calcinhas Plenitud. Você acha o parto bonito? Ele é. Mas, talvez você tenha que passar dias usando fraldas para incontinência urinária. Mas, já adianto que é uma alternativa maravilhosa se você está, literalmente, com um vazamento constante. E eu só pensava na doula, que havia listado essas tais calcinhas como essenciais… por que não dei ouvido?

O legal de ter o suporte de uma equipe alinhada ao seu pensamento, e suas vontades, é que ninguém sugeriu que fossemos correndo para o hospital, pelos perigos e riscos da bolsa rota. Muito pelo contrário. Eu estava calma, mesmo porque havia prestado bastante atenção no curso de preparação para o parto – e sabia que tinha, no mínimo, umas 48h para entrar em trabalho de parto com segurança. O marido já não estava tão tranquilo assim. E foi entre pesquisas no Google, com resultados nada otimistas, que fui avaliada pela enfermeira obstetra, que passou a noite na nossa casa, monitorando os batimentos do Francisco  e o meu bem estar. Estávamos bem. Então ela sugeriu, junto à médica, que fizéssemos um cardiotocografia para avaliar, mais profundamente, a situação do bebê. Nisso, já era 10h de quinta-feira. Eu não havia dormido nada. Marido também não. E o resultado do exame indicou que deveríamos esperar… afinal, eu não tinha quase nenhuma dilatação, colo do útero posterior, grosso, nada bom ou animador. E o que eu poderia fazer? Nada, só esperar. E, claro, almoçar uma pizza.

E quem disse que as horas passam ou algo evolui enquanto você tenta esconder de todos que está quase fazendo promessa para entrar em trabalho de parto? Nada, claro.

Decidimos, então, aguardar até o final do dia e ver o que poderia acontecer. Tendo em vista que grande parte dos casos de bolsa rota terminam em trabalho de parto em menos de 24h. Mas, isso não aconteceu comigo. Nem me espantei. Era hora, então, de induzir o parto.

Eu não sabia muito bem como seria. Não estava preparada para essa possibilidade. Nunca tinha pensado que isso aconteceria comigo. As estatísticas mostravam que a chance de a bolsa romper sem trabalho de parto era de 1 em 12. Que ótimo! Me senti sortuda, só que não. E mal sabia eu que a indução do parto poderia ser tão dolorosa. Como eu li em algum lugar, muito mais dolorosa que um trabalho de parto espontâneo. Mas, qual a medida para essa dor? Eu não sabia. Mas, logo iria descobrir. Pensei que seria como a dor de uma enxaqueca muito forte, daquelas que te fazem até vomitar. Mas, não. Seria um pouco diferente. Com excessão do “quase vomitar”.

A indução começou ainda em casa. E algumas contrações mais dolorosas começaram a aparecer. Mas, foi já no hospital, com o segundo comprimido de prostaglandina, que a dor realmente apareceu. E, aí, já era setembro. Já era dia 1º. E, mais uma vez, nada de dormir. Seria a segunda noite acordada, depois de muitas outras mal dormidas. Mas, tudo bem. Até a situação mais estranha parece fazer sentido quando você está prestes a conhecer sua cria. O tão aguardado feto.

Com a equipe reunida no hospital estávamos prontos para o nascimento. Eu estava animada, por algum motivo. E a dor parecia sobre controle. Até que, do nada, a dor leve virou uma grande dor. A maior dor de todas. Que só parecia piorar.

Cadê o tal hormônio do amor?

Banho, água quente, massagem, meditação, oração, nada funcionava. E eu cheguei a pensar “onde fui me meter?”. Mas já estava ali. E o que eu coloquei no meu plano de parto foi seguido a risca. Até a parte da anestesia. Eu precisava dela. Já estava implorando. Então lá fomos nós para a peridural, em algum momento do dia que já nem me recordo mais. De manhã? A tarde? Quem sabe.

Como pouco drama é bobagem, a primeira peridural não pegou. Não fez nem cócegas. E me senti injustiçada por ter levado aquela agulhada horrorosa nas costas pra nada. Eu quis matar o médico. Literalmente. Senti uma raiva dele maior do que a raiva que eu sentia da vida. Sim, eu comecei a me perguntar o que eu havia feito para merecer perder meu pai dias antes do meu filho nascer. Posso ser sincera ao falar isso, ou tenho que esconder? Já nem ligo.

Como o tempo passou e a dor não só continuou, mas aumentou, fomos nós para a segunda tentativa de peridural. Agradeci aos céus quando vi que outro médico entrava pela porta. Senti confiança. Algo me dizia que ele sentia, também, um pouco de piedade por mim – ou então estava escutando os meus gritos e berros que, pelo que me contaram, ecoavam pelo corredor do hospital. Desculpa a quem estava nas redondezas, mas você já tentou parir uma criança? Eu que não grito “uhul” nem em show, nem em aula de spinning, estava gritando. Como se eu tivesse em casa. Até porque eu estava me sentindo em casa naquela superfaturada suíte de parto (que nada mais era que uma salinha bem equipada – por favor melhore, MaterDei, e pare de cobrar extra por aquilo).

A segunda anestesia pegou. Aleluia, pensei. Até que não fez mais efeito. Nessa hora, tudo era uma questão de dor. E, em algum momento – não sei bem quando, eu consegui a proeza de arrancar não só o cateter para soro do meu braço, mas também o tal cateter da peridural. Sangue jorrava enquanto o marido me olhava com descrença. E eu nem senti dor . Afinal, o que seria mais um furo para quem estava tentando parir um bebê?

Manda mais anestesia, por favor

E lá fomos nós para o terceiro processo da peridural. Sim, o terceiro. Anestesia aqui, fura ali, um líquido gelado corre pelas costas, e era hora de tratar muito bem o médico. O anestesista. Ele tinhas as drogas. Eu tentava parecer um pouco lúcida e sensata enquanto explicava que estava com muita dor… Mas, pensa que acabou? Não. A anestesia não durou. Nada.

Ok, temos que rever essa questão da anestesia. Já tomei tantas anestesias nessa vida de plásticas para arrumar lábio leporino que não me lembro de um efeito tão sem graça.

E, enquanto a dilatação ainda estava longe dos tais 7 cm, o jeito era uma anestesia mais, digamos, potente. Peridural com raqui. Confesso que temi. Mas, o médico parecia saber o que estava fazendo. E foi realizado todo o processo de furo nas costas, mais uma vez. E, aí, pegou. A dor aliviou. E a obstetra partiu para o que podia ser feito para agilizar o trabalho de parto. Ocitocina na veia? Teve. Teve de tudo. Não sei bem o que. Se era pra ser feito, que fosse. E, na tarde do dia 1º de setembro, eu estava oficialmente pronta para receber o feto Francisco.

Eu sabia que ele estava chegando quando percebi uma movimentação atípica na minha casa. Ou melhor, na tal suíte de parto. Não tinha só a doula, enfermeira, obstetra, marido e irmã (que me perdoou mesmo eu tento gritado com ela algumas vezes, não poucas). Agora tinha uma segunda médica, assim como algo que parecia ser um pediatra e uma enfermeira do hospital. Com tanta gente, ou eu estava morrendo, ou o bebê estava para nascer. Acreditei na segunda opção.

Movimentos na barra, no banquinho, promessas, lágrimas, pedidos mil por uma cesárea (sim, eu devo ter pedido umas 10x por uma cesárea, mas eu estava fora de mim – literalmente louca). E era hora. Ou nascia, ou vinha de forcéps. O que não parecia muito legal. Já imaginou? Quando escutei algo falar sobre a possibilidade, pensei: tem que nascer! “Vamos, meu filho”. Força aqui, força lá, sangue escorre (quanto sangue!) e… nasceu.

Não, não tenho palavras para explicar o nascimento. E desculpa, meu relato não é fofo ou delicado. Não, não foi uma lindo e poético parto natural sem anestesia. Foi um parto normal com um monte de anestesia esquisita, bolsa rota, uma gestante meio maluca e tudo meio bagunçado. Teria como combinar mais com a minha vida? Acho que não. Nunca fui dada aos roteiros mais simples. Muito pelo contrário. Mas, quando saiu de mim aquele ser com a cabeça em forma de cone – parecia um alien, juro – e veio para os meus braços, eu vi que tudo tinha valido a pena. Queria abraçar a doula. Queria beijar a obstetra e a enfermeira. Queria agradecer ao mundo pela bênção alcançada. Francisco estava bem. Eu estava, aparentemente, bem – sem grandes estragos, apesar dos roxos nas mãos e nas costas. E o feto era a coisa mais pequena e linda do mundo (mãe é mãe). Quem importa o jeito que foi? O melhor parto, pra mim, sempre será aquele que a gente vive. E o meu parto maluco, sofrido, foi, pra mim, o mais lindo. Se eu faria tudo de novo? Por agora, não. Mas, quem sabe depois.

Francisco nasceu no dia 1º de setembro, às 15h36, pesando 3.050kg e 51cm.

Tchau agosto, oi setembro: Francisco chegou

É só um bebê, mas é tudo!

Há 10 dias minha vida mudava completamente. Não que eu não soubesse que isso estava por acontecer. Foram 41 semanas de espera, ansiedade e alegria – tecnicamente, 39. Foram mais de 250 dias de preparação e planejamento. Mas, nem todo planejamento poderia me fazer entender o que estava por vir. Ou melhor, como minha vida mudaria – de verdade – entre a última semana de agosto e a primeira de setembro.

Enquanto esperava Francisco, perdi meu pai.

Perdi meu pai em algum momento que marcava 40 semanas e 2 dias de gestação. Os dias que eram pra ser os mais felizes da minha vida se transformaram em momento de desespero e dor. Por mais que eu não pudesse me permitir sentir aquela dor. Afinal, eu tinha uma bênção dentro de mim. Um ser que, deste sempre, valia mais do que tudo. E que era aguardado, com ansiedade, não só por mim, mas também pelo meu pai. Eu devia isso à ele. Não poderia desanimar ou esmorecer. Por mais que eu me perguntasse a cada segundo se aquilo tudo estava mesmo acontecendo. E por que naquele momento?

Não sou tão forte assim…

Cansei de tentar entender essas coisas da vida. Como que, num piscar de olhos, tudo muda. Isso já aconteceu tantas outras vezes… mas eu ainda não me acostumei. E, o que eu já havia escutado, passava a fazer ainda mais sentido: a gente se programa, mas algumas coisas estão muito além do que podemos controlar. Te dizem pra ser forte, mas como ser tão forte assim? Guardei para mim o direito de chorar. De sofrer. De sentir dor. Não sou tão forte como gostaria. Ou como seria bonito afirmar…

E também foi assim com Francisco. Com aquele que me segurou de pé. Ele nasceu quando quis, como quis. Bem diferente do jeito que a gente havia desejado. Do jeito que eu havia combinado com ele. Era pra ser um parto tranquilo. Com contrações, seguidas por uma bolsa rompendo naturalmente e um nascimento bonito e suave. Com direito a fotos felizes. Que nada… O roteiro desenhado pelo cara lá de cima era bem diferente.

Senti, ao mesmo tempo, dor física e emocional. Pela primeira vez.

A bolsa rompeu ainda em agosto. Em um momento no qual eu gargalhei de doer a barriga, por algum motivo bobo. E ali começou tudo. Espera, espera e mais espera… afinal, a vida é uma eterna espera – será esse meu roteiro?! E, nada. Contrações induzidas e, lá fomos nós, para um caminho de muita dor. Uma dor que eu jamais poderia imaginar. Que não estava nos meus planos. Como pode? Eu estava em frangalhos, mas ele estava bem. Já havia se passado um dia – e ainda era agosto – e agora era questão de honra esse bebê nascer só em setembro. Quando o dia virou, eu já nem sabia mais quem era, ou onde estava. E entre flashes desconexos do que foi um dos dias mais insanos da minha vida, ele nasceu. Eu tive o meu parto normal. Ele estava bem. Eu estava bem. Tudo valeu à pena. Era 1º de setembro. 15h36.

10 dias depois, aqui estou sem entender bem as últimas duas semanas. Parece já ter se passado mais de um mês, mas o tempo não corre quando a gente quer que ele voe. Ainda me esqueço, vez ou outra, de que não tenho mais uma importante parte da minha vida. Que mais essa parte se foi. E perder essa parte, de alguma forma, me fez sentir ainda mais saudade da minha mãe – e de tudo o que a gente viveu. Da nossa família alegre e unida, apesar de tudo. Do nosso vínculo. Da criação simples, mas de amor sem medida. Da falta de limites pra bagunça e brincadeiras, mas das obrigações claras em uma rotina repleta de atividades.

Francisco chegou. E enquanto escrevo vigio a babá eletrônica que registra seus movimentos malucos. E é um amor tão surreal que dói. Dói pelo medo de não ser forte o suficiente, como ele precisa. Dói, também, fisicamente. A cada mamada. A cada vez que acordo de madrugada. A cada vez que sinto falta da mulher que eu era e que sei que jamais serei. A cada vez que eu desejo sumir no mundo, mas lembro que não posso mais. Mas, quem sabe eu serei uma pessoa melhor?! Ainda não sei. É bem provável que não. Talvez eu seja só a mesma Amanda de sempre, na versão mãe. Um tanto quanto confusa, ainda. Mas tentando meu melhor. É um misto de insegurança, medo e expectativa. Que seja, assim, da melhor maneira. Me nego a planejar mais nada. Só me resta sonhar com o melhor.