Sobre tudo o que perdi, por não abrir as cortinas

Já é assunto batido a ideia de que vivemos correndo. Estamos sempre com pressa. Desesperados para cumprir prazos. E pra saber de tudo o que acontece de novo. O novo de todo dia. Que quase sempre é o mesmo.

Sofremos com FOMO, ou melhor: fear of missing out. Ou, o medo de ficar por fora. Mas, até mesmo por isso, perdemos muito. Querendo saber de tudo, e ter tudo, perdemos coisas preciosas.

Ou melhor, eu perdi

Era só abrir as cortinas…

Passei alguns anos morando no mesmo apartamento, sem nunca abrir as cortinas do quarto e do escritório. Foram meses e mais meses deixando de lado a melhor vista que eu poderia ter. A vista do jeito que eu gosto. A Serra do Curral, as árvores, os prédios que se misturam com a natureza…. tudo isso sempre esteve ali, pedindo para ser admirado.

Chegava em casa e saía sem nem me preocupar com janelas. Sempre correndo, com pressa. Ocupadíssima, eu dizia. E me orgulhava. E mesmo quando não estava com pressa, estava preza no computador, na tela, na vida online, sabendo de tudo, sem saber de nada.

Mas, os meses que vieram com o nascimento de Francisco me fizeram abrir as cortinas e a janela.

O meu filho me fez olhar pela janela.

Sempre que chorava, meu bebê se acalmava observando os passarinhos, as árvores, o vento, os prédios, o sol…

E hoje, por aqui, o dia só começa com cortinas abertas. E a casa aberta para um novo dia. Para novas chances e oportunidades.

É nas dificuldades que descobrimos novas formas de se encontrar.

Era com o choro do meu bebê que eu tive que olhar menos para a tela do celular e do computador, para encarar o que viesse por aí.

Era só questão de uma nova perspectiva…

Ainda corro. Ainda tenho pouco tempo, para tudo o que quero fazer. Mas, o pouco é suficiente para dar uma pausa e respirar.

Viver é sobre perspectiva.

E olhar para o mundo com generosidade.

O belo está ai, na nossa frente. Não é preciso comprar uma passagem pra longe para entender.

E de nada adianta, aliás, ir pra longe, se não estamos abertos para olhar e ver!

Essa vida online tão boa, tão simples, faz a gente esquecer do quão rico é o mundo. Que bom que somos, vez ou outra, forçados a repensar nossos velhos e tortos hábitos.

Vou, sempre, abrir as cortinas. Olhar. E ver.

Entre tumultuosas e intermináveis ondas de transformação

“É preciso estar preparado para tumultuosas e intermináveis ondas de transformação”, Elizabeth Gilbert

Ando meio emotiva. Ou seria emocionada? Nem sei. Estou com os nervos a flor da pele. Em breve Francisco completa um ano e tento não me tomar pela tristeza de já não ter mais meu pai aqui, comigo, por um ano. Somada à saudade de minha mãe.

A coincidência das datas ainda me dói. O que ainda mexe com meus dias e pensamentos, também. Afinal, são emoções conflitantes que me afetam, mas que não podem me abalar. Então, é uma luta diária.

recuperação e autoestima

1 ano de muitas primeiras vezes

O último ano foi uma loucura. Muitos começos. Muitas primeiras vezes. Muitos arrependimentos vieram à tona. Mas, por outro lado, descobri amigos. E me encontrei resiliente.

É engraçado, mas apesar de mais madura, mais calejada, me sinto mais jovem. Recuperei a coragem perdida com o tempo. E o gosto pelo frio na barriga.

Com isso, me sinto menos preocupada com “o que os outros vão pensar”, ou com “o que vão dizer”. Isso, por tanto tempo, foi um grande fator limitador na minha vida. Cresci em cidade do interior, sempre sofrendo com o que falavam, mas sinto que finalmente isso ficou para trás.

Vão sempre falar algo sobre você, seja bom ou ruim. Que seja. Do que isso importa?

Tenho um bebê que me desafia todos os dias, assim como todos os outros devem também ser. E nesse ano como mãe passei grandes apertos. Vi de perto a pior da solidão. Descobri como o ser humano pode ser cruel, interesseiro e ruim. Ruim mesmo, maldoso. Ou seria egoísta? Mas, mais uma vez, tento não endurecer.

Lembro a frase “há que endurecer, mas sem perder a ternura, jamais”. Que não é Che. E nem de ninguém. Mas, quem inventou merece aplausos. Eu também sempre lembro das palavras de Guimarães Rosa: “o que a vida quer é coragem”, e elas nunca deixaram de ser parte da minha história. Não é assim? Coragem e ternura?

Motivação que conforta e transforma

Pois é, virei uma grande sequência de frases motivacionais e livros de autoajuda. Virei uma esperançosa nata. Vou vivendo. Lembrando que isso já é muito bom. E que sofrer com conforto, e com a barriga cheia, já é um privilégio. O que me conforta e me faz sofrer menos. Quer saber? Eu sei, sou muito afortunada. E tudo o que passamos realmente nos engrandece. E são esses desafios que nos transformam e que nos mostram como somos capazes de nos reinventar. Mesmo quando tudo parece conspirar contra.

Rever para não reviver

Às vezes, parar um pouco, pensar, refletir, é essencial para não deixar que os dias, meses, e anos, passem sem que você perceba. E aí acumulem-se erros ou decepções, que poderiam ter sido evitadas.

Olhar para suas atitudes e escolhas é questão de analisar os rumos da vida. Resgatar os momentos que se perderam em busca não de remoer os erros do passado, mas sim para vislumbrar melhorias para o futuro.

Prestar atenção em tudo o que passou.

Entender o que passou é essencial para não se entregar às falhas do passado

Estabelecer metas e focar em melhorias é uma maneira simples de pensar suas atitudes e planejar o que será feito do seu tempo e da sua vida. Vale listar, desenhar, imaginar. Vale fazer qualquer coisa que alimente a esperança de dias melhoras.

Ir mais ao cinema, beber menor, economizar, acordar mais cedo, vale tudo. As pequenas mudanças são as mais fáceis de colocar em prática, e são as que, quase sempre, geram grandes resultados.

Sonhar com o possível é simples e mágico, assim como querer o impossível que só depende de você.

É hora de escrever novas histórias

A cada ano que passa, um ciclo se fecha. Nesse tempo, dividido em semanas e meses – tantas denominações para marcar conquistas em meio a fracassos – colecionamos alegrias e decepções que pautam diretamente a forma com a qual encaramos o que passou. Difícil ou fácil, bom ou ruim, o tempo que ficou para trás é sempre de aprendizado. E mostra algo que pode ser útil ou promissor, olhando para o que vem pela frente. Afinal, seguimos vivos e, querendo ou não, sobrevivemos… mesmo quando pensamos que seria impossível aguentar a queda.

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A vida é surpreendente e estar vivo é algo único

Um ano não muito bom é um ano que abre as portas para algo melhor. Com decepções acumuladas, páginas viradas e a ideia de que o que passou, passou, resta esperança para seguir em frente… a ideia da superação, do “ficar livre” e encarar uma nova perspectiva. Assim, nada melhor que uma data que celebra essa guinada, mesmo que ela (sinceramente) não seja muito significante. A não ser pela mudança na folhinha e na agenda. O desafio, sempre, é se desvencilhar dos pensamentos pessimistas que insistem em dizer que nada muda, o que muitas vezes faz com que nenhuma situação de fato melhore. Até mesmo porque uma hora as coisas precisam mudar! E se é pra mudar, poxa, que seja pra melhor.

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Recomeços

Para começar um novo ano com mais esperança e disposição, vale de tudo! De simpatias à promessas; de exercícios à rituais de renovação. Entre eles, praticar o desapego e realizar uma faxina na casa; fazer listas com desejos (reais) para o próximo ano ou mesmo anotar pensamentos ruins e joga-los fora, pelo mero ato da libertação. Inclua, aí, apagar alguns nomes da agenda, encarar as dívidas, perdoar, ou ter conversas que foram adiadas por medo ou receio… sabe? Do que você precisa para se sentir melhor?! A hora é agora.

É legal usar o tempo de menos compromissos, possíveis viagens, férias, talvez… ou até mesmo esse tempo de proximidade com as pessoas amadas para repensar a vida. E estabelecer novas prioridades, traçar metas e ter um foco. O passado já era e dele sobram histórias. Outras histórias pedem para ser escritas e podem ser diferentes. Viver no piloto automático enquanto tudo acontece, deixando o controle da sua vida nas mãos do nada, não convêm. Só você sabe exatamente o que pode ser bom para você. Queira se renovar e entre as memórias que tal guardar apenas as que valeram à pena?! A escolha é sua.

Texto originalmente publicado em 26 de dezembro de 2014.