É só um bebê, mas é tudo!

Desde quando vi o positivo escrito com todas as letras no teste de gravidez, depois de um positivo muito suspeito na forma de risquinho rosa clarinho – quase uma sombra -, me peguei pensando no tipo de criança que criaria eu um mundo no qual você é avaliado pelo que tem.

Ainda era 2016. E, apesar das poucas semanas de gestação (praticamente duas), eu já tinha alguém crescendo dentro de mim. Um nano serzinho. Algo do tamanho de uma semente. E, no dia do Natal, na casa do meu pai, comecei a revirar fotos antigas. Tentava resgatar alguma mensagem da minha mãe. Algo que, por acaso, ela teria me ensinar ou me mostrado caso estivesse por aqui. E, de alguma maneira, ela me revelou uma coisa bem importante.

Na simplicidade das minhas poucas fotos de bebê, vi uma família muito feliz e maluca. Como sempre fomos. Muitos sorrisos, muita bagunça, liberdade, mas poucas coisas. O quarto era simples. Um berço, alguns brinquedos, mas nada muito luxuoso. Tudo bem, já se foram mais de 30 anos desde o meu nascimento. E tudo mudou. Algumas poucas décadas atrás, a indústria da maternidade, ou o mercado da gravidez, não era como o de hoje. Mal existia. Ter um filho, ao que me parece, era menos um evento e mais uma fase natural. Um ciclo mais emocional do que social. Se é que vocês me entendem…

Com aquelas fotos, anotações (no tradicional livro do bebê), recortes e detalhes, entendi que o que a minha mãe me diria, hoje, é: ter um filho é mais simples do que parece. É só um bebê! E foi nisso que foquei desde o começo. Desde quando, lá pelas oito semanas, já tendo escutado o coraçãozinho acelerado daquele que eu chamava de filhotinho, comecei a pesquisar sobre enxoval. Sobre compras. Sobre o que ter! E, claro, o que não ter.

Mas, em todos os cantos, eu era bombardeada com tantas coisas! No maior estilo, “você não vai fazer chá de bebê?”.

Ok, revelo. Fizemos a tal sexagem fetal. O que foi, pra mim, o luxo dos luxos. Seguido pelo ultrassom 4D. Aquele no qual o Francisco insistia em cobrir o rosto com as mãos, ou se cobrir com o cordão umbilical… será o feto tímido como a mãe? Em alguns anos saberemos.

A verdade é que estar grávida mexe tanto com as emoções que é fácil se deixar levar pelo que te contam que é necessário.

Listas e mais listas malucas

Desde as 12 semanas, fase na qual nos sentimos mais confiantes para contar ao mundo que temos direito a fila preferencial, as listas me pareciam muito malucas. Nas lojas online, coisas lindas! Superficialmente úteis. Mas, exageradas. Precisaria um bebê de tantas roupas? Ou melhor, precisaria, eu, de tantos cremes, almofadas, roupas novas e produtos que são inflacionados só por terem na embalagem a palavra ‘gestante’?

Precisaria eu de um enxoval ‘made in miami’, ou de um ‘chá de revelação’, um ‘chá de bebê’, seguido por um ‘chá de apresentação’ e impecáveis lembrancinhas para colocar na maternidade? Por que eu deveria me preocupar com isso e não com os gastos com vacinas e, daqui a pouco, com uma boa escolinha?

Eu nem sou a pessoa mais social! Na verdade, sou uma introvertida! Introvertidos fogem de aglomerações…

Sendo sincera, o grande investimento inicial, de quando eu nem arriscava comprar uma única roupinha de bebê, foi o de muitos repelentes. Um estoque deles. Aquele mais caro. Porque, né. Nunca se sabe. E não me arrependi.

E o tempo passou, com muitas dúvidas acumuladas quando ao que comprar. O que ter. Do que realmente vamos precisar. Não só eu, mas nós. A família. Um pai, uma mãe e um pequeno serzinho chamado Francisco.

Prioridades

Sei que ele vai precisar de amor. Muito! Além de um carinho, muitas fraldas, alguns babadores, um berço que dure muito tempo (e vire uma cama), além de uma babá eletrônica. Coloquei na lista um carrinho que coubesse no meu carro – vou seguir com o subcompacto, já pensou ter que trocar de carro, de apartamento e de estilo de vida logo agora? Muita informação.

Sei, ainda, que vamos precisar, logo menos, de uma estante nova. E de uma cachorra menos peluda (Chiquinha, minha vida, você será tosada como nunca antes). Ainda acho que precisaremos de criatividade. E será suficiente. Um bebê é só um bebê.

Paciência, aparentemente, é e sempre será pré-requisito.

Minimalista, mas nem tanto

No curso de cuidados com o bebê, conhecemos uma enfermeira que mais parecia um anjo! Com toda a sua sinceridade, nos mostrou que estamos no caminho certo. Já sei que comprei umas bobagens (mesmo com a minha tal lista minimalista), mas é o tal erro de iniciante. E, por pouco, não deixei de comprar coisas essenciais – como álcool absoluto e compressas de gaze, detalhes tão baratinhos. Mas, esses são os primeiros deslizes de muitos que vou cometer. Sempre tentando acertar. Não é isso que importa?

Enquanto isso, o tal bebê que é só um bebê – na verdade, ainda um feto – chuta enlouquecidamente o que parece ser o meu pulmão. E faz a minha bexiga de travesseiro. A sensação, por mais incômoda que seja, é maravilhosa. E importa, pra mim, muito mais do que a ideia de um quarto perfeito decorado nos mínimos detalhes, com papel de parede importado e o tal caríssimo berço preto que eu, levada por um impulso consumista, pensei em comprar. Mas, lembra? É só uma pessoinha. Que precisa de amor. E não digo isso minimizando a existência dele, do Francisco. Muito pelo contrário. Acho incrível tudo o que está acontecendo. Piro de pensar que estou gerando um ser. E que um embrião com um centímetro, lá no primeiro ultrassom, virou o que virou hoje. Esse menino tá enorme! Fico pensando nos seus dedinhos mexendo, no sorriso que você deu pra gente aquele dia no último ultrassom, quando a médica nos divertiu com o tal 4D (por mais médicos que façam isso). E vou rezando pra dar tudo certo. Só que, meu querido filhotinho, você não terá tantas roupas assim, como me dizem que você precisa. Não vai ter nem look especial para saída da maternidade – tomara, no entanto, que você caiba na roupinha RN divertida (apesar de básica) que comprei, tão bonitinha. Também não terá um quarto de príncipe. Vai faltar o banco de cachorrinho, com assinatura de designer. E nós nem teremos uma poltrona de amamentação. Mas, você vai ter um quarto de criança. Pensado para você. Sem tema especial, mas com um apelo canino porque você já nasce obrigado a gostar de cães – desculpa. E, nós, vamos conseguir nos dar bem com essa ideia da simplicidade.

Estou te esperando, como nunca esperei nada antes.