A tendência e o corpo

Uma tendência é uma ideia, pensada e fabricada dentro das referências de uma temporada. Nada é colocado nas araras por acaso e são raras as marcas que trabalham fora dessa concepção de pensamento pronto; o conceito, o tema, é inserido quase sempre no fim da história. A sincronia de detalhes, de cores e formas não sai do acaso, mas sim de um estudo prévio do que estará em voga numa determinada época – e essa informação pode ser comprada em bureaus de estilo (pense em WGSN). O que importa para nós, como consumidores, é que recebemos um leque de opções que estarão disponíveis para nosso consumo; para vestir, e comprar, devemos trabalhar com essa oferta. Claro, você pode pensar em costureiras e roupas sob medida, mas como produto pronto (como prêt-à-porter), há uma massificação do que é ofertado. Hoje, por exemplo, vemos a exaustão o militarismo, o navy, o liberty… tudo isso repetido e reproduzido dentro das características próprias de cada marca – seja num comprimento mais encurtado ou reproduzido em tecidos de alta qualidade.

A questão é que seja lá qual for a tendência ela interage com pessoas vivas, cheias de vontades e opiniões; para isso é preciso deixar de lado o pensamento de ordem e abraçar a ideia de uma orientação. Manipular uma tendência, brincar com a oferta, fortalece a criação de sua identidade. A moda não é estática, assim como o consumidor também não é. Tudo muda a todo tempo e nesse jogo as chances de se obter sucesso cresce para quem se coloca em primeiro plano, bem a frente do que chega pronto e é assimilado sob a forma de imposição.

É preciso pensar que vestir o corpo é dar forma, cor, vida a alma e a tudo o que somos de forma não palpável. Somos pensamentos, sentimentos, emoções, crenças e tudo isso é materializado pelo que usamos. A vontade de comunicar, de conversar e dialogar (não só via palavras) é natural de todo ser vivo e olha só que chance maravilhosa é essa de poder enviar mensagens sem precisar soltar a voz. A fala, no caso de contato visual, chega bem depois da imagem… é o impacto do contato visual que gera aquela primeira impressão já cheia de conclusões. Com isso o corpo, em sua forma interiorizada, ganha ainda vida de maneira plena quando pensamos nos gestos e anexos.

A partir disso abre-se o leque para um mar de pensamentos ligados ao corpo, a tendência e a moda. Essas ideias serão apresentadas aos poucos, num momento bem pertinente – de onde virão também tendências futuras. Acontece que o tema do Minas Trend Preview, edição outono inverno 2011 (oi?!), será… o Grupo Corpo, numa total onda do corpo em si. Lembra que já relacionamos expressão, imagem, estilo e dança nesse outro post?! Pois bem. Essa relação entre o corpo, o Grupo Corpo e a moda será exposta no evento que trás a temática como homenagem, mas também como uma lembrança para a expressão pessoal em forma de identidade e estilo pessoal. E tudo isso vem junto desse processo de elevação da auto estima pela qual conseguimos ganhar qualidade de vida (mesmo!) e satisfação não pelo resultado de imagem por si mas também, e principalmente, pela capacidade de comunicar e expor sentimentos de forma rica e plena.

A alma da coreografia

Quem disse que a roupa precisa ser sempre a peça principal de um espetáculo? Nem no nosso espetáculo diário, nas passarelas do dia-a-dia, a roupa precisa ou deve ser ponto central. Quantas vezes já lembramos a importância de colocar o rosto em foco?! Para tudo há momento.

No caso de um figuro, como bem diz o termo, lembra um traje à complementar a arte deixando em primeiro plano aquilo de mais marcante dentro de tal forma de comunicação. Na dança, essencialmente no Grupo Corpo, a roupa nada mais é que uma extensão da essência do espetáculo no qual todos os elementos se abraçam numa sintonia que envolve até mesmo o mais desinteressado dos espectadores. Roupa como um prolongamento.

Em cada obra do Corpo, de 21 à Ongotô, passando por Santagustim, Bach, Benguelê, Parabelo… tudo se complementa. Música aliada à figurino misturado ao cenário que colocar em voga os movimentos ora sutis, ora marcantes, da dança. Como já foi dito inúmeras vezes por Freuza Zechmeister, responsável já a bastante tempo dela ‘imagem’ de palco da companhia (figurinista), o trabalho em conjunto é imperativo. Em sua palavras: “Não há diferença entre criar um figurino, um espaço ou um jardim. Trata-se da ocupação de um objeto no espaço”. Na malha, colante e reveladora, uma forma de dar liberdade aos bailarinos sempre valorizando o movimento. Quando existem detalhes, volumes, eles surgem como um apêndice; nada é pensado de forma isolada. Freuza indica cabelo, adornos, maquiagem… jogos de cores nas roupas que parecem se agrupar naturalmente entre as coreografias, reservando grupos e colocando em destaque um único elemento como numa pintura móvel que vai criando desenhos cada vez mais expressivos. Difícil, claro, é decidir em segundos para onde olhar.

Quando o corpo é a ferramenta, a linguagem principal daquele momento, a roupa se faz acessório numa extensão literal de movimentos e interpretações. Ainda nas palavras de Freuza: “O figurino anima a coreografia, no sentido mais fundo da palavra: dá alma. O que está dentro e o que está fora viram uma coisa só, que se movem no espaço do palco e no tempo da música”.

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