Se libertar e evoluir

“Se é verdade que nosso organismo traz em si células-tronco indiferenciadas capazes, como as células embrionárias, de criar todos os diversos órgãos de nosso ser, a humanidade também possui em si as virtudes genéricas que permitem criações novas. Se é verdade que essas virtudes estão adormecidas, inibidas sob as especializações e e a rigidez de nossas sociedades, então as crises generalizadas que as abalam e abalam o planeta poderiam permitir a metamorfose que se tornou algo vital. É por isso que não devemos mais continuar na rota do desenvolvimento. Precisamos mudar de caminho, precisamos de um novo começo”.

A Crise da Modernidade – Rumo ao Abismo? Edgar Morin

As palavras de Edgar Morin são marcantes, vão direto ao ponto. Estamos, de certa forma, amarrados as grandes evoluções de nosso tempo e, em meio a tantas conquistas, sentimos que não conseguimos ir além. Talvez nem bem sabemos o que queremos. Isso não vale apenas para os notáveis passos do desenvolvimento, para grandes descobertas, para um mundo de conquistas mil. Isso vale para cada um de nós, para o que somos e o que queremos ser. Como diz Morin em um de seus textos, somos capazes de criar e recriar; temos em nós, em nossa essência, essa chance de começar de novo e de, assim, sair de onde estamos para ir para outro lugar. O tal do desenvolvimento pode nos amarrar a um certo caminho onde ficamos viciados a olhar apenas para um determinado ponto, presos em uma rota final que é tida como a ideial. Porém, na encruzilhada de informações, nas rotas diversas que moldam nossos caminhos, podemos optar por uma outra saída, escapando do congestionamento que faz com que todos nós tenhamos a sensação de que precisamos de uma mesma e única coisa para encontrar a felicidade.

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E, assim, o mundo pode estar se perdendo em uma ideia fixa de que o futuro, a prosperidade, estará nas grandes tecnologias, na dominação total da medicina. Só que, na verdade, já é possível perceber uma busca por outros desejos, quando vemos a espiritualidade crescendo, quando sentimos que o consumo exagerado já não é mais o único tema abordado pela mídia – pelos comerciais. Vemos algo um pouco diferente, queremos nos emocionar, queremos voltar a ter sensações puras e íntimas que deixamos escapar por entre os dedos na busca por algo de concreto e teoricamente certo, assinado por especialistas e doutores.

Na ânsia pela segurança, descobrimos que temos mais do que precisamos e continuamos sem saber o que será do dia de amanha. Sentimos medo, ficamos tristes, estamos sozinhos… esse é o tal mas estar da pós-modernidade do qual tanto fala Zygmunt Bauman… Isso é um fato, uma realidade. Seremos eternamente incapazes de saber o que será do futuro, mas podemos experimentar novos caminhos e, assim, quebrar um pouco da rigidez de nosso tempo. Podemos ser otimistas. Vale ser otimista!

E na moda, onde isso entra? Entra na história de sair da zona de conforto, de saber que para conquistar o novo é preciso tentar algo de diferente. Já não há mais certo ou errado, há adequado e inadequado. Temos um mundo de possibilidades e ainda assim estamos insatisfeitos com nossa imagem?! Vamos mudar essa história, em busca de autoestima elevada e satisfação pessoal. Vamos parar de postergar o bem estar. O sistema da moda está repleto de cenários e podemos tirar proveito dessas muitas chances que as marcas nos oferecem. Talvez a confiança com nossa imagem está nesse novo caminho, nesse tal novo começo falado por Morin. Nossas virtudes visuais, ou nossas capacidades, não precisam mais estar adormecidas. Vamos nos permitir uma metamorfose, vamos abraçar a felicidade. Sonho?! Talvez sim, talvez não.

Texto publicado, originalmente, em 23 de fevereiro de 2012.

Olimpianas da era digital

Copiadas, invejadas e celebradas as blogueiras são olimpianas da era digital, estabelecendo um novo estilo de adoração.

“No encontro do ímpeto do imaginário para o real e do real para o imaginário, situam-se as vedetes da grande imprensa, os olimpianos modernos.”

Nos blogs e blogueiros de moda, estilo e comportamento o papel da divulgação chega a ser desnecessário, pois a fórmula de sucesso, dos looks à registros de compras, viagens e hábitos, está nessa sintonia entre real e imaginário. As blogueiras estabelecem a substância humana necessária à cultura de massa, naturalmente apresentada como um presente que é oferecido aos que seguem, literalmente, essas bloguers em seus caminhos. Blogueiras de moda, de todo o mundo, são mais que estrelas – são olimpianas.

“Os novos olimpianos são, simultaneamente, magnetizados no imaginário e no real, simultâneamente, ideais inimitáveis e modelos imitáveis; sua dupla natureza é análoga à dupla natureza teológica do horói-deus da religião cristã: olimpianas e olimpianos são sôbre-humanos no papel que eles encarnam, humanos na existência privada que eles levam. A imprensa de massa, ao mesmo tempo que investe os olimpianos de um papel mitológico, mergulha em suas vidas privadas a fim de extrair delas a substância humana que permite a identificação.”

O que facilita o efeito olimpiano das blogueiras (e blogueiros) de moda é o comportamento estabelecido que entrega, de mãos beijadas, de detalhes íntimos de suas vidas privadas. Entre explicações e jusficativas, conversas e revelações, a ligação que se estreita, dia após dia, em sistema de total cumplicidade e fidelidade. A interação via comentários e tweets afina essa sintonia, essa tal amizade, que como resposta abre as portas para uma rede de comércio e negócios da qual as empresas bebem, e se aproveitam, pela credibilidade que essas meninas possuem – e por serem grandes formadoras de opinião. Assim, as blogueiras podem ser vistas como melhores (no quesito utilidade) que as celebridades, pois se banham de uma suposta legimitidade ou mesmo autonomia de escolhas e seleções. A opinião é presente, permanente, mas por vezes a assinatura tem um preço… que ninguém precisa ou deve conhecer.

No prime network de blogs de moda do Brasil, Fashion Hits – F*Hits, um exemplo claro desse processo que reúne os maiores olimpianos da blogosfera brasileira, alguns com impacto e importância no contexto mundial. Por vezes, o sentimento de admiração se mistura à vício; em outros momentos, o processo de dependência leva a necessidade de verificar, dia após dia, o que acontecem com essas pessoas. São amadas e, por consequência, odiadas em um caminho que também chama sentimentos de inveja e ódio.

“Os olimpianos, por meio de sua dupla natureza, divina e humana, efetuam a circulação permanente entre o mundo da projeção e o mundo da identificação. (…) Eles realizam os fantasmas que os mortais não podem realizar, mas chamam os mortais para realizar o imaginário. “

São as blogueiras que realizam os sonhos que muitos gostaria de realizar, que conhecem lugares, destinos e festas que tantos desejavam. Ganham presentes, são convidadas para todos os lançamentos e vivem uma vida que abraça em todos os sentidos o consumismo e o mundo das futilidades – de maneira alguma pejorativo. São elas que conseguiram ser admiradas por muitos, que colecioam milhares de seguidores e dezenas de milhares de acessos diários. São populares, como as meninas gostariam de ser há uma década atrás no colégio. São olimpianas, divinas pela característica de estarem sempre em um posto superior, acima do padrão, e humanas por serem as garotas que nós poderíamos ser.

Importante, acima de tudo, reconhecer que essas características nada mais são que um fruto do tempo, algo da nossa era. Não há novidades, a não ser pelo contato direto com o mundo virtual e com as teconologias. Essa história, hoje tão discutida, sempre existiu com outros atores. Toda sociedade busca seus ídolos, suas referências, como se fosse impossível seguir algum caminho que não seja indicado por algo, ao menos aparentemente, superior e mais repleto de sabedoria. Cabe pensar nos olimpianos, ou nas blogueiras olimpianas da era digital, como os símbolos da atual industria cultural que, já instaurada e firme em seu caminho, ainda deixa suas manchas na busca pelo constante e permanete lucro.

As frases são trêchos de um texto de Edgar Morin, em Cultura de Massa no Século XX.