Porque sinto pena da menina que fui

A cada vez que eu escuto um “cabelo ruim”, remetendo ao cabelo cacheado ou crespo, eu lembro daquela menina de 11 anos que, uma vez por semana, ía ao salão fazer escova e passava o máximo de dias possível sem lavar os fios.

Porque cabelo liso é que era bom e bonito.

Eu lembro daquela menina que odiava as aulas de natação – mesmo sendo boa – porque tinha que, depois lavar os cabelos… O que fazia surgir, de volta, o tal cabelo natural. Cacheado. Ruim.

Lembro da menina que amava as aulas de jazz, mas se sentia horrível a cada vez que se via no espelho. Porque o cabelo cacheado tinha muito frizz. E, nas aulas de ballet, o coque nunca ficava tão impecável quanto o de meninas com cabelo liso… Era preciso muito creme, muito gel, o que só deixava o cabelo ressecado.

Essa menina fui eu.

Meu tal cabelo ruim

Hoje, a cada vez que me falam do cabelo ruim, do cabelo cacheado ruim – quando, por exemplo, eu disse que queria que meu filho tivesse cabelo cacheado como o meu, e não lisinho e louro – eu sinto pena da adolescente que fui.

O que me faz querer usar mais e mais meus cachos. Mais cacheados. Mais volumosos. O quanto menos possível.

E quem não gosta dos meus cachos, não gosta de mim. Porque eu sou uma mulher de cabelos cacheados. Uma mulher que lá em algum momento dos anos 80, dispensaria o difusor.

Meu cabelo liso e tão ruim…

As coisas são muito malucas. E hoje eu vejo como o meu cabelo alisado, oleoso, sofrido debaixo de uma hora debaixo do secador – depois da chapinha e, por fim, a escova progressiva cheia de formol – era ruim.

O meu cabelo alisado, pra mim, era ruim.

Principalmente quando me limitava. Quando me fazia desgostar de coisas que me traziam felicidade.

Mesmo quando a progressiva fez do meu cabelo um cabelo que enganava bem, quase um liso natural – e que sim, lá pelos 20 e poucos anos era um cabelo bonito – eu não me sentia tão melhor que agora.

Bom, pra mim, hoje, é tomar um banho, lavar os cabelos e não me preocupar com mais nada. É não ter que passar o dia no salão fritando debaixo da chapinha e do produto que, supostamente, não tem formol.

Liberdade é meu cabelo cacheado. Que para alguns é ruim. E pra mim é meu. Bom, ótimo, lindo, natural. É meu. Puro. Minha essência. 

Sinto pena da menina que fui. Mas me orgulho da mulher que me tornei.