Do fetiche à tendência

Elementos que remetem ao universo do fetiche trabalhados de forma inocente e inseridos no dia-a-dia das mais diversas mulheres; a prova de que, em se tratando de moda, a interpretação é o que dita o desfecho da história.

A atração por um visual sexy e envolvente, com elementos literalmente selvagens, pode gerar uma tendência ao exagero. Mesmo assim, esse caráter fetichista pode ser a natural representação de um tempo ou de elementos da própria personalidade. O que antes era tradução de ousadia hoje é parte do contexto mesmo tendo, inevitavelmente, ligação com toda uma bagagem teórica.

O fetichismo é especialmente significativo neste momento da história, porque não é mais primordialmente associado a “perversões” sexuais individuais ou a subculturas sexuais. Até o momento atual, práticas secretas têm se tornado cada vez mais visíveis em toda parte na cultura popular.

 

A opção por um jogo de estampas de animal, ou mesmo por outros elementos clássicos ao fetiche (entre couro, latex, bandage, overknee boots) pode passar longe da escolha, assumida, de um determinado universo e, quase que automaticamente, carrega a justificativa de um interesse pelo visual atual ou moderno. Porém, mesmo com toda sua raiz em tendências, não deixa de abraçar as raízes de seus elementos que incluem não apenas um estilo mais sexy e ousado, mas muito da forma de encarar a vida e assumir sua sexualidade. São diversas as maneiras de interagir com a tendências, no entanto há um tipo de referência que sobrepõem o tempo e ultrapassa os modismos. São mulheres que lançam mão de elementos visuais como forma de dar seu recado.

O que antes era visto com olhares críticos e comentários baixos, denegrindo a imagem, foi incorporado ao dia-a-dia e às escolhas diárias do vestir; isso se deu pelos caminhos seguidos pela cultura e pelas mudanças comportamentais pelas quais o mundo passou. Talvez por isso as estampas de bicho tenham sido tão assumidas e inseridas na rotina – mais do que em qualquer outra época que se têm memória ou lembrança. O mesmo pôde ser percebido com diversos outros elementos que servem como base para tal percepção – dos vestidos justos e curtos às botas acima dos joelhos, passando, também, pelas leggings de couro ou outros tecidos molhados e colantes. Classificar como sexy seria pouco.

O capitalismo certamente teve um papel importante na ascensão de estilos inspirados no fetichismo, tanto porque a própria moda se desenvolveu simultaneamente à ascensão do capitalismo quanto porque a indústria da moda tem recentemente tomado para si grande quantidade de itens do guarda-roupa fetichista. Mas isso é parte de um processo mais geral, pelo qual estilos subculturais são assimilados pelas correntes principais da moda, depois de terem sido pioneiramente desenvolvidos por pequenos produtores abastecendo as “pessoas excêntricas”. Uma vez que os modismos fetichistas tenham atingido um “fator de estilo” entre os lançadores de tendências, elas são selecionadas pelos internacionalmente famosos estilistas de moda cujos trabalhos são então “roubados” pelos fabricantes de roupas do mercado de massa.

 

Mais do que looks atuais, frutos de uma tendência, há a ideia de que o toque fetichista já não é mais visto e interpretado como uma personalidade totalmente ligada ao universo do que é sensual; pode-se pensar, a princípio, em salpicar detalhes desse mundo de forma a remeter ao que é sexy sem, por sua vez, estar dentro desse universo. Assim, formas e maneiras que pelas quais o que sai do quadro da criação consegue ser útil e prático na construção de identidades cada vez mais variadas.O estilista surge como ponte entre o conceito e sua interpretação final; já nós, como consumidores, manipulamos como queremos e como desejamos um certo universo ou uma determinada ideia. Dos toques do fetiche, um sopro de um mundo cheio de possibilidades e ramificações – das superficiais às que assumem suas características e pontos mais profundos.

“A moda é o comparativo do qual o fetichismo é o superlativo”, sugeriu o historiador da moda James Laver. (…) Mesmo quando estilistas mais ou menos conscientemente reproduzem o look do fetichismo, as roupas resultantes têm um significado diferente dependendo do contexto e dos participantes.

 

As citações foram retiradas do livro Fetiche: moda, sexo e poder, de Valerie Steele. Já as imagens são do catálogo de inverno Roberto Cavalli, com as tops Aymeline Valade e Olga Sherer.

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