Inspiração que vem do meio

Gosto muito de um tipo de visual que é bem incorporado pelo ambiente, quando a roupa parece conversar com o meio no qual está inserida. Isso é importante e pode ser trabalhado de inúmeras formas, pensando não em uma interpretação direta e óbvia do que é adequado, mas caminhos inúmeros que fortificam mensagens. É exatamente isso que os stylists fazem na produção de catálogos de moda, estes que servem para atiçar nosso desejo de compra – quase que nos levam para aquele local cheio de sensações e emoções.

Se as peças são neutras, leves, suaves, doces, o ambiente parece carregar essa mesma sensação – potencializando o clima definino pela coleção. Para um dia de sol, calor, traduzido nas cores do sol, o mesmo pode ser visto nas paisagens e nas tonalidades. Tudo é fresco, transparente e real.

Já pensou como não funciona inserir uma roupa de praia em um dia de neve? Ou mesmo que estranho é uma bota pesada em um dia de forte sol e calor? A falta de harmonia e coerência é veneno para a beleza – sem exagero. E digo a beleza que não se discute, a que está fora dos padrões e que entra no adequado ou inadequado.

Já num clima contrário, forte e quente, a referência máxima é de roupas igualmente leves, e curtas, porém com uma transparência bem mais velada – ainda com toques de verão. O que reforça a ideia, o conceito, é o cenário. Podemos pensar que na vida, no nosso dia-a-dia, interagimos com diversos locais, inúmeras paisagens, assim como vemos (e adoramos) nos catálogos e editoriais das marcas e revistas. Para ousar, basta se inspirar.

Deixe a criança ser criança…

Eu tinha uns 11 anos quando, na escola de jazz, participei de um concurso de coreografias e nosso coreógrafo utilizou como tema algo que levou o nome de ‘quero ser criança embora a tecnologia’. Foi uma super experiência, dessas que você não entende direito por causa da idade, mas que te deixa cheia de curiosidade quanto ao que há além da sua vida. Não, a gente não entendia muito bem o que dançava… nem nessa e nem nas outras muitas coreografias. Só com o tempo o jazz, a dança, foi ganhando sentido de fato. Apesar da seriedade dos ensaios, da rigidez com horários e da preocupação em decorar os passos (e as contagens) tudo era muito leve e divertido. Uma brincadeira na qual a gente sentia, ou ao menos eu sentia, que estava fazendo algo de adulto. E parava por aí. Nessa coreografia, onde dançavamos com a vontade de permanecer criança apesar dos avanços da tecnologia – que nos levavam a ter grande contato com televisores, jogos eletrônicos e computadores (bem no começo dessa história), o que era elemento de ligação com a infância eram ursinhos de pelúcia da Disney, que literalmente nos faziam companhia entre os ensaios. E as brincadeiras, ali, também moravam… apesar dos já presentes comentários sobre paquerinhas, gostar de fulano, gostar de beltrano… tudo imensamente inocente se comparado ao que meninas de 10 anos vivem hoje. Pois não é que essa preocupação com a tecnologia deu lugar a algo muito mais grave?! Hoje, nós, dançaríamos aos 6 anos de idade algo como “quero ser criança embora a vaidade”. E, assustador, é perceber que em 10, 15 anos a história caminhou para um lugar assustador no qual meninas (literalmente crianças) brincam de ser adultas e têm atitudes, hábitos e costumes que nossa geração (hoje na casa dos 20/30) só foi conhecer ao sair do colégio e entrar na faculdade – e olhe lá. Para onde estamos indo, e como estamos indo, é pergunta que me faço todos os dias olhando para a inocência, com dias contados, dos pequenos que amadurecem cada vez mais cedo e cada vez com menos preparo para o mundo. Apresentam cada vez antes sinais de arrogância, prepotência, preconceito… Claro que, no meio desses mini adultos, existem algumas joias raras para as quais olhos com incrível admiração, quase que parabenizando os pais por serem tão incríveis ao ponto de manter viva, nos filhos, a infância que dura cada vez menos tempo. Assim, me parece válido tentar manter ativo no dia-a-dia dos pequenos um toque lúdico e mágico que é tão essencial para a construção de sonhos e objetivos de vida. Digo isso porque eu lembro, muito bem, dos meus 5/10 anos de idade quando olhava com admiração as mulheres mais velhas e sonhava em um dia chegar lá – até que esse dia chegou. Tudo ao seu tempo, tudo tem sua hora. Estimular a vaidade de uma menina pequena é estimular muitas outras coisas que fogem do controle. E, vejo isso, muito mais claros nessa relação de mãe e filha, não tanto no jogo dos pais e filhos – talvez por sempre ter em mente o que eu fazia quando era mais nova, não sei bem como é o tempo dos garotos. E, ao ver mães de meninas de 12 anos preocupadas com o estilo das filhas, propondo consultoria de imagem, fico pensando no que passa na cabeça de um ser desses. A criança precisa se conhecer para conseguir estabelecer seu próprio diálogo com as roupas. Esse contato, tão importante, deve ser natural e não forçado. As fazes de revolta, de exagero, de descaso, sempre dão lugar a algo muito mais interessante – basta deixar as peças se encaixarem. E é desse tempo que as crianças precisam, do tempo para viver o que precisam viver, descobrir e aprender.

Informação superficial serve?!

Muito se fala e se discute sobre o conteúdo dos blogs de moda, principalmente aqueles que fazem mais sucesso em questão de visitas e acessos. Fato: acesso não representa qualidade, assim como ibope televisivo não é tradução de bom material. Claro. Se a novela tem picos altíssimos não significa que ela é melhor que o programa matinal de receitas e assuntos gerais. Acontece que o jornalismo como mercadoria, num processo da própria evolução desse campo, leva a tona o sucesso dessa informação direta e superficial que entretêm e vende de maneira inconsciente, assim como a publicidade quer. A contextualização com o panorama atual nos faz perceber que sim, é o prazer do fútil e/ou pouco útil que grande parte do público quer. Ou pensa que quer.

Talvez o leitor, o espectador, o ouvinte tenha sido lentamente educado a acreditar que aquela informação fácil é o que ele aguenta, o que ele precisa depois de um dia cansativo. Talvez, se se der uma chance, ele (ou nós) podemos perceber que somos muito capazes de sair da superfície e entrar mais fundo em cada ponto. Importante ser expert em todos os assuntos?! Não, jamais. Mas já pensou que talvez estamos sempre na primeira camada da informação?! Ao ler somente a chamada da notícia, ao parar no primeiro parágrafo, ao olhar só imagens e ver apenas as partes grifadas acabamos educados a aceitar a informação direta – mastigada, entregue de bandeja. Assim, usamos o que nos é imposto, gostamos do que aparece na capa da revista, copiamos o look que certas blogueiras ou stylists apresentam como boa ideia. Reproduções do que é massificado. Vixi. Talvez aquela nem seja, para você, uma imagem visualmente bonita… talvez você não precisa se sentir culpada, ou culpado, em não gostar – em desgostar. Vale a pena investir tempo em reflexão.

Ao se entregar a informação superficial, à pirâmide que nos faz beber um mix de fatores importantes previamente estabelecidos, estamos aceitando que talvez somos incapazes de pensar e de realizar nossas próprias escolhas. É algo como: me entregue o que pensar, me dê o que vestir, me mostre do que gostar e liste para mim conclusões e opiniões finais. Discordar, escolher, sair do padrão é saudável, é inteligente. Ir além é ser esperto, é pensar. Pensar cansa, claro – requer um mínimo esforço. Mas todos se esforçam por algo… se esforçam para conquistar uma pessoa bacana, para ter um corpo bonito, para conseguir aquele ingresso esgotado ou mesmo para comprar aquilo que tanto queria.

Ler não cansa. A leitura é um exercício, daqueles que podem ser trabalhados dia após dia. Ler engrandece independente do assunto, vale um livro, o jornal (não o tablóide de 0,25), a revista de moda, de cultura, de economia ou seja lá do que for. Deixar de ser superficial é o que gera diferenciação. Você é diferente, e melhor, que os demais. Mente quem diz que ser só mais um é legal. Isso pesa, pesa na vida pessoal e pesa demais no ambiente profissional. Já pensou? Já sentiu isso na pele? Pois é.

Por isso acho que quando falamos muito sobre a situação do blogs de moda estamos, de certa forma, gritando ‘culpado’ para uma esfera de uma situação geral. O que preocupa, ou assusta, é essa visão global que mostra que em todos os lados muitos se limitam ao que entretêm e pouco querem saber do que engrandece e informa.

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Por uma vida menos virtual

Hoje em dia trocar telefones parece já não ser mais o suficiente. Uma lista de outras conexões parece complicar, e atrapalhar, toda a história do conhecer e decifrar – que deveria ser lenta e pausada pelo bom desenvolvimento da situação. A internet, como ferramenta, pode sim ser extremamente útil aproximando as pessoas, mas por outro lado acaba afastando e bagunçando alguns tipos de relacionamentos que mal existe. É como se o excesso de informação apresentada em pouco tempo, pelas páginas do facebook, postagens em blogs ou tweets, lhe contassem prematuramente detalhes que você só descobriria após um certo envolvimento – não causando grande choque ou até repulsa. Além disso o tão instantâneo messenger lhe coloca em contato direto (24/7) com pessoas das quais você deseja algo menos virtual, como uma simples ligação ou um sms… Onde fica a ansiedade para que isso aconteça? Não há tanta graça em acordar e descobrir que você já foi rastreado de todas as maneiras possíveis. Nisso o que perde é a vida real que se esvai entre as conexões virtuais. Não mais que de repente lhe cercam por mil e um pontos que você mesmo alimenta dia após dia com postagens inocentes – e naturalmente você também entra nessa brincadeira mente quem diz que não. Foursquare, instagram… e aí?! Fica a decepção ao perceber que num possível encontro real tudo o que poderia ser discutido de forma animada já foi contado pelo teclado. Que grande perda! Ainda pior é quando a troca virtual lhe tira tudo o que você tem de melhor… aquelas coisas que ganham brilho e graça no contato direto, na troca de olhares. Qual o charme em um status de online?! Um emotiocon?! Lamentavelmente é preciso se cercar de diversos lados para ter certeza de que algo de demais não foi revelado para alguém que você acabou de conhecer. E bom seria se voltassemos ao tempo do telefone, do fixo… no tempo da espera, da ligação que chega quando você menos imagina. Do encontro leve com perguntas naturais… tudo para que a graça da história não fique em chats sem graça. Cada vez mais a favor de uma vida e de relacionamento menos virtuais.

Marcas estéticas, nunca internas

Cicatrizes são marcas da vida, partes de histórias ou fases pelas quais passamos. São lembranças que ficam na memória, por razões que podem ser boas ou ruins. A questão é que lidar bem com essa(s) cicatriz(es) é algo, por vezes, não tão fácil que pode acabar dificultando pontos da imagem (e auto-estima) que nem deveriam estar ligados à tais ideias. Marcas permanentes não devem causar desconforto ou vergonha, devem ser incorporadas ao que você é sem que isso gere sensação de estranheza – mesmo que íntima.

Abraçar suas cicatrizes, assim como acatamos nossas naturais proporções e características pessoais, é o caminho mais leve e curto para o encontro com a tão ambicionada felicidade e paz de espírito.

Quem assiste ao programa Top Chef com certeza já reparou em Padma Lakshmi, apresentadora que chama atenção por sua elegância e beleza. Ainda muito jovem, aos 14 anos, a modelo sofreu um acidente que lhe deixou uma cicatriz relativamente grande no braço direito – entre ombro e cotovelo. Esse detalhe passa facilmente despercebido pela naturalidade de Padma que não busca blusas com mangas para disfarçar e esconder a cicatriz. Símbolo e referência de auto-estima elevada.

De toda forma falo, um pouco (ou muito), por conhecimento de causa. Aprendi desde muito nova a lidar bem com cicatrizes que, principalmente em tempos de colégio, geravam grande curiosidade. Vi que melhor que se ofender é explicar, ainda que superficialmente; vi que as pessoas são sim crueis quando querem ser, mas a sensação de incômodo nada mais é que uma projeção de problemas internos. Quem tanto estranha, ou se incomoda, com marcas em outros deve guardar em si marcas invisíveis terríveis bem mais difíceis de superar e por isso acaba vendo na exposição de histórias dos outros uma forma de aliviar tensões que machucam por dentro…

Assumir suas marcas, suas cicatrizes, é o que as deixa ainda menores e menos importantes. Quando você esquece que as possui, não por vergonha mas por ter incorporado de fato aquilo, tudo fica mais fácil e é um peso a menos para se carregar na vida.