“Mamãe foi trabalhar” e teve que esconder seus sentimentos

Chorei como criança lendo um livro infantil.

Me senti a JoutJout. Se debulhando em lágrimas com um livro infantil em mãos. E pensei nas emoções que escondi durante muitos diasEu fui trabalhar. E meu bebê, de apenas seis meses, foi pro berçário. Eu só fui trabalhar…

Tudo tão planejado…

Desde que estava grávida, eu já planejava como seria o meu retorno ao trabalho. Pesquisei inúmeras escolas. Visitei berçários. Conversei com responsáveis, avaliei custos, pensei, ou melhor, pensamos em tudo! Fiz matrícula. Tudo tão certo!

Entre uma babá e uma escolinha, optamos pela segunda opção. Afinal, para um bebê – uma criança – avaliamos que seria mais divertido passar um tempo em um lugar lúdico, lindo, fofo, que até tem periquitos, do que dentro de casa, com uma mesma pessoa.

O bebê foi pro berçário. 

Antes mesmo disso, mamãe ficou sabendo que seria demitida. E escutou mais de uma dezena de vezes aquela famosa frase: “que ótimo, assim você vai poder cuidar do seu bebê”.

Não.

Ninguém demite um pai para que ele cuide do seu bebê.

Parece que a nova mãe está sempre na linha de frente do corte de gastos. Das substituições. Das trocas. Ou das buscas por economia. Por melhorias. A nova mãe leva a culpa.

A gente sabe que não tem tanta culpa assim, mas sofre.

Leva a culpa pelos meses que “ganhou” de presente. Leva culpa por procriar.

A nova mãe demitida, vulnerável, encontra um mercado de trabalho fechado. Que duvida de suas capacidades. Afinal, como pode uma mulher dar conta de cuidar de um bebê e de algum projeto profissional? Impossível.

Que loucura. Mal sabem das coisas que a gente da conta… o quanto a gente se multiplica para fazer acontecer!

Pense, então, se essa nova mãe não tem mãe. Não tem aquela ajuda gloriosa que protege e resguarda. E não tem mais um monte de coisas. Ninguém liga se a nova mãe ama trabalhar. Se ela precisa de trabalhar. Se ela quer trabalhar. Boletos não esperam.

Poderia eu demitir alguns boletos? Corte de gastos que chama, né?

Dá-se um jeito

Mas, mamãe queria trabalhar. E, com tudo planejado, assim seria. Mamãe deu um jeito e foi trabalhar. O bebê foi para o berçário, como planejado.

Entre medo, insegurança, desespero, ansiedade, empolgação, vários sentimentos juntos, a nova mãe, que sou, teve que esconder alguns sentimentos. O peso na consciência. A dúvida. E mais um monte de questionamentos…

Não chorei na porta da escola. Não chorei entregando meu filho para uma desconhecida. Não chorei enquanto aguardava, sentada na pracinha da escolinha, o seu primeiro dia de adaptação. Também não chorei no segundo, e nem no terceiro, ou no quarto.

Fiz tudo com alegria. Com um sorriso no rosto. Vesti a melhor “cara boa” que estava disponível.

Mas, chorei no quinto. Quando ele adoeceu pela primeira vez.

Me senti culpada, questionei se conseguiria, de fato, voltar para um mercado de trabalho que me fechou a porta. Fui persistente. Voltei.

Dei passos para trás, para caminhar para frente. Coloquei, de alguma forma, outros vários sentimentos de lado.

Fiz o que muitas outras mulheres fazem todos os dias, eu sei.

Fui.

Uma vida toda nova

Esqueci de algumas das minhas emoções, enquanto outras eu manifestava chorando durante a noite, brigando com o marido, invejando o fato dele poder ser homem, pai, e não se sentir deixado de lado ou esquecido como profissional. Porque o pai não tem suas capacidades questionadas. O pai não entra na assombrosa estatística de demitidos após dar a luz.

Coloquei a cabeça no lugar e lembrei de tudo o que aconteceu. A vida que mudou por completo. Os três últimos anos. As pessoas que se foram, que deixaram um vazio na minha vida, mas que me ensinaram o valor do trabalho. Da coisa certa. De correr atrás. De acordar cedo, batalhar, merecer. Do meu primeiro trabalho aos 12 anos. Do primeiro salário. Do dinheiro suado e merecido. Pensei nos meus privilégios, que perduram até hoje. Nas graduações que, de alguma forma, caíram no meu colo. Fui lá. Fui trabalhar.

Poderia eu fazer diferente? Ou, queria eu fazer diferente?

E hoje, quando peguei o livro “Mamãe foi trabalhar”, não aguentei. Fui trabalhar e deixei meu pequeno para trás. Vi toda a culpa aflorar, aquela que estava dentro de mim. Choro de novo pensando que o bebê pode sentir falta do meu abraço, do meu colo, do jeito que só eu sei colocar ele para dormir – porque sim, é assim. E dei ainda mais valor para o sorriso que ganho a cada vez que busco meu pacotinho. Mesmo quando recebo ele com combinações de roupas super engraçadas, desencontradas, e penso que isso é uma bobagem, mas só eu sei montar os looks dele da maneira certa.

Quem mistura cachorrinho com astronautazinhos?

Mamãe foi trabalhar. O bebê ficou no berçário. E o que fica é o amor. 

Os novos desafios. As portas que se abrem, enquanto outras fecham. Os recomeços. Impostos, ou desejados. As fases difíceis que vão sendo aos poucos superadas. E o amor incondicional, enorme, imenso, absurdo, por um bebê que é tudo. Que me transforma. E que me faz renascer a cada dia. Ainda que com sono.

Seja a sua própria cura

“Para viver em harmonia na sociedade humana, precisamos encontrar e manter um equilíbrio. Um equilíbrio entre nossas reações imediatas, instintivas, emocionais e as respostas racionais que preservam nossos elos sociais a longo prazo. A inteligência emocional é mais bem expressa quando os dois sistemas – os cérebros cortical e límbico – cooperam constantemente. (…) Esse estado de bem-estar é aquilo a que aspiramos continuamente. É o sinal de harmonia perfeita entre o cérebro emocional, suprindo energia e diretrizes, e o cérebro cognitivo, levando-o à fruição.”

 

Passamos a vida buscando a plenitude. Sofremos por imaginar que a felicidade está em bens materiais. E que a cura está apenas, e exclusivamente, na medicina. Sem falar que pensamos que a paz está na riqueza ou no sucesso. No entanto, a idade e a maturidade mostram o valor imenso das coisas simples e, nos momentos mais inimagináveis, percebemos o quão pequenos somos perante a grandeza do mundo.

As respostas para as mais diversas perguntas podem estar na reflexão e no olhar para o que se passa dentro da gente. E, cada vez mais, fica claro o poder do lado emocional no lado físico e a importância da harmonia entre ambos os campos.

No livro “Curar – o stress, a ansiedade e a depressão sem medicamentos nem psicanálise”, Dr. David Servan-Schreiber fala sobre tratamentos alternativos, a medicina das emoções e também sobre tratamentos para doenças emocionais, que afetam tantas pessoas atualmente. De acordo com ele, nosso corpo naturalmente busca a cura e temos este instinto básico de sobrevivência que coopera para que possamos reagir e dominar nossos pensamentos.

Parar e perceber como a fisiologia do nosso corpo sofre com a parte emocional do nosso cérebro é essencial para lembrar que controlar sintomas não é curar. A cura precisa acontecer de maneira plena para funcionar. O livro passa por várias etapas. Até chegar a questão do restabelecimento da coerência por meio de um plano de ação.

Como chegar ao cérebro emocional e auxiliar no restabelecimento da coerência: Plano de ação

  1. Prática da coerência cardíaca
  2. Dialogue com suas memórias dolorosas
  3. Gerenciar conflitos
  4. Enriquecer relacionamento
  5. Maximize o ômega-3
  6. Consiga “um barato” à base de exercícios
  7. Despertando com o sol
  8. Abra seus meridianos
  9. Busque uma conexão mais ampla

A cura emocional

Não há uma receita para a cura emocional. Da mesma forma que é impossível dar as costas para a medicina tradicional. No entanto, é evidente a importância de uma intervenção completa em todos os aspectos para tratar doenças (principalmente) de fundo psicológico. Pensar nos 9 passos da coerência é cuidar da saúde física e mental. É o que passa até mesmo pela nossa atitude em meio ao mundo que vivemos.

Daí que a recuperação da autoestima ou o controle do consumismo exagerado pode ter como resposta este olhar ‘para dentro’ e para coisas não materiais. Essas que desencadeiam compulsões e buscas incansáveis por posses.

 

“Relacionamentos emocionais – mesmo nossa relação com os outros em nossa comunidade – têm um enorme componente físico, um impacto direto em nosso bem-estar físico. Esses portais físicos para o cérebro emocional são mais diretos e, com frequência, muito mais poderosos do que o pensamento ou a linguagem verbal.”

 

O Dr. David Servan-Schreiber ainda reforça a importância da interação com outras pessoas para o bem-estar físico. Por isso, conversar e trocar ideias com aqueles que fazem parte do nosso dia-a-dia pode ser tão enriquecedor. E trazer tamanha sensação de bem estar. “A vida é uma luta. E é uma luta que não vale a pena ser travada se for apenas pelo nosso próprio bem”. Muito além do egoísmo, uma possível saída para a sensação constante de solidão que aflige tantos na era pós-moderna.

A coragem de ser imperfeito

Para muitas mulheres, a perfeição estética não chega a ser um objetivo. Esta meta, no entanto, cede lugar a outros tipos de cobrança tão pesadas quanto àquelas relativas ao visual. O perfeccionismo que influencia a maneira de agir e pensar acaba servindo como um bloqueio que limita as experiências de quem não consegue se entregar completamente à vida por medo de possíveis julgamentos. Ou, mesmo, pelo receio de não ser pleno ou perfeito.

imperfeição

Viver na margem, no desejo da tentativa, na vontade de um dia conseguir, gera mágoas e estragos permanentes, tais como insegurança e baixa autoestima. Mais do que isso, é um tipo de escolha que superficialmente até protege (naquele momento ou fase da vida), mas que faz com que o passo além não aconteça jamais! É preciso viver com ousadia, abraçar cada uma de suas imperfeições e fazer do querer um experimento. Em um jogo de tentativas e erros, as chances ao menos existem… sejam elas meio a meio ou, talvez, até mesmo menores do que isso. O que não se pode é pensar que um mau presságio ou o receio do possível resultado negativo bloqueie o tentar.

O poder da vulnerabilidade

Em “A coragem de ser imperfeito”, livro de Brené Brow, este assunto é tratado com muita delicadeza, sendo mais do que um livro motivacional. A autora, responsável por uma das mais assistidas palestras do TED, explora o poder da vulnerabilidade e indica razões e maneiras para abrir mão da vergonha – aquela que carrega o estigma do erro e do fracasso.

A leitura é, mais do que tudo, muito indicada para quem não está 100%  de bem com a vida. Afinal, se mexer, mudar algo, renovar-se com referências e novas inspirações é essencial para traçar um caminho que leve ao acerto. Porque, mais ora, menos ora, algo tem que ser feito. E repensar a maneira de agir e de se comportar é a base para fazer acontecer.

Como Brené Brown cita em um dos capítulos do livro, “os momentos mais fortes de nossas vidas acontecem quando amarramos as pequenas luzinhas criadas pela coragem, pela compaixão e pelo vínculo, e as vemos brilhas na escuridão de nossas batalhas”. Poderoso, não?!

 

 

Texto originalmente postado em 30 de janeiro de 2015.

Se libertar e evoluir

“Se é verdade que nosso organismo traz em si células-tronco indiferenciadas capazes, como as células embrionárias, de criar todos os diversos órgãos de nosso ser, a humanidade também possui em si as virtudes genéricas que permitem criações novas. Se é verdade que essas virtudes estão adormecidas, inibidas sob as especializações e e a rigidez de nossas sociedades, então as crises generalizadas que as abalam e abalam o planeta poderiam permitir a metamorfose que se tornou algo vital. É por isso que não devemos mais continuar na rota do desenvolvimento. Precisamos mudar de caminho, precisamos de um novo começo”.

A Crise da Modernidade – Rumo ao Abismo? Edgar Morin

As palavras de Edgar Morin são marcantes, vão direto ao ponto. Estamos, de certa forma, amarrados as grandes evoluções de nosso tempo e, em meio a tantas conquistas, sentimos que não conseguimos ir além. Talvez nem bem sabemos o que queremos. Isso não vale apenas para os notáveis passos do desenvolvimento, para grandes descobertas, para um mundo de conquistas mil. Isso vale para cada um de nós, para o que somos e o que queremos ser. Como diz Morin em um de seus textos, somos capazes de criar e recriar; temos em nós, em nossa essência, essa chance de começar de novo e de, assim, sair de onde estamos para ir para outro lugar. O tal do desenvolvimento pode nos amarrar a um certo caminho onde ficamos viciados a olhar apenas para um determinado ponto, presos em uma rota final que é tida como a ideial. Porém, na encruzilhada de informações, nas rotas diversas que moldam nossos caminhos, podemos optar por uma outra saída, escapando do congestionamento que faz com que todos nós tenhamos a sensação de que precisamos de uma mesma e única coisa para encontrar a felicidade.

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E, assim, o mundo pode estar se perdendo em uma ideia fixa de que o futuro, a prosperidade, estará nas grandes tecnologias, na dominação total da medicina. Só que, na verdade, já é possível perceber uma busca por outros desejos, quando vemos a espiritualidade crescendo, quando sentimos que o consumo exagerado já não é mais o único tema abordado pela mídia – pelos comerciais. Vemos algo um pouco diferente, queremos nos emocionar, queremos voltar a ter sensações puras e íntimas que deixamos escapar por entre os dedos na busca por algo de concreto e teoricamente certo, assinado por especialistas e doutores.

Na ânsia pela segurança, descobrimos que temos mais do que precisamos e continuamos sem saber o que será do dia de amanha. Sentimos medo, ficamos tristes, estamos sozinhos… esse é o tal mas estar da pós-modernidade do qual tanto fala Zygmunt Bauman… Isso é um fato, uma realidade. Seremos eternamente incapazes de saber o que será do futuro, mas podemos experimentar novos caminhos e, assim, quebrar um pouco da rigidez de nosso tempo. Podemos ser otimistas. Vale ser otimista!

E na moda, onde isso entra? Entra na história de sair da zona de conforto, de saber que para conquistar o novo é preciso tentar algo de diferente. Já não há mais certo ou errado, há adequado e inadequado. Temos um mundo de possibilidades e ainda assim estamos insatisfeitos com nossa imagem?! Vamos mudar essa história, em busca de autoestima elevada e satisfação pessoal. Vamos parar de postergar o bem estar. O sistema da moda está repleto de cenários e podemos tirar proveito dessas muitas chances que as marcas nos oferecem. Talvez a confiança com nossa imagem está nesse novo caminho, nesse tal novo começo falado por Morin. Nossas virtudes visuais, ou nossas capacidades, não precisam mais estar adormecidas. Vamos nos permitir uma metamorfose, vamos abraçar a felicidade. Sonho?! Talvez sim, talvez não.

Texto publicado, originalmente, em 23 de fevereiro de 2012.

O que o dinheiro não compra

Em tempos de camarotização, onde tudo é ponto de venda, corremos o risco de perder, até mesmo, boas possibilidades de interação

“Quanto maior o número de coisas que o dinheiro compra, menor o número de oportunidades para que as pessoas de diferentes estratos sociais se encontrem.” Se as coisas tem um preço, e tal preço é alto, as distâncias entre grupos sociais naturalmente crescem e, assim, é alimentado um ciclo que separa, insistentemente, povos e pessoas. Por mais que para alguns isso seja o esperado, ou até mesmo sonhado, tal afastamento gera efeitos drásticos e irreversíveis, de impacto profundo mas, por certas vezes, invisível. Se você se considera superior, e quer distância daqueles, ou daquilo, que não condiz com o seu suposto ‘nível’, não sabe a oportunidade que está perdendo de ampliar seus horizontes, viver a vida de forma plena e entender que quando há preço para tudo, os reais sentimentos e desejos deixam de ter significado e passam a ser meros detalhes de uma vida de muitas posses, muitos bens, mas pouca paz e felicidade e nenhuma sinceridade.

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 As separações crescem e ganham novas formas, se multiplicam no trânsito, nas festas, nos locais de morar, estudar ou até mesmo caminhar. Para os que podem pagar um pouco a mais, há sempre uma solução para se ver livre do infortúnio de se deparar com uma realidade que não querem encarar. As desculpas são sempre as mesmas e incluem o batido discurso de que o trabalho é muito e deve ser recompensado com algum tipo de exclusividade. “O importante é que pessoas de contextos e posições sociais diferentes encontrem-se e convivam na vida cotidiana, pois é assim que aprendemos a negociar e respeitar as diferenças ao cuidar do bem comum.” No entanto, seria tão essencial assim, como dizem, se manter próximo aos que fazem parte do seu convívio e ignorar os demais?! Há de se pensar, antes de tudo, que em uma sociedade global, as ações de cada um geram reações de impacto geral, assim a interação pode não acontecer de maneira direta, mas existe – ainda que superficialmente. Mais do que isso, é importante entender e perceber no dia-a-dia como as relações ganham também forma de produto para quem vive cifrões e, com isso, se multiplicam os ciclos de interesse nos quais até mesmo as amizades e os relacionamento pessoais – os mais básicos e primordiais – são alimentados por trocas financeiras sob a forma de presentes ou convites. Se você se isola, e tudo compra, estará se entregando a um mundo que luta para que tudo tenha um preço, mas que clama por pureza nas facetas mais básicas da vida, porque sente falta de sorrisos, de cumplicidade e de paz.

Trechos retirados do livro O que o dinheiro não compra, de Michael J. Sandel

Texto publicado, originalmente, em 13 de novembro de 2012